Região do Minho

Cantar faz parte da vida e viver é pertencer a grupos cuja história se constrói a partir do que fizeram, mas também dos lugares onde tudo foi feito. Conhecer o lugar, o território tem, assim, importância para se compreender o que nele acontece. O Grupo de Cantares das Mulheres do Minho interpreta alguns cantares polifónicos que fazem parte da história da gente que vive no Minho, território do Noroeste português, com Braga por capital.

Ao longo dos tempos, o espaço minhoto foi-se organizando a partir de núcleos territoriais – as freguesias – onde viveu a gente que cantou as polifonias aqui reportadas e cuja maioria foi recolhida, a partir de testemunhos vivos, em várias freguesias rurais de Braga.

Nos séculos XII-XIII as freguesias rurais estruturaram-se a partir das unidades territoriais religiosas já existentes – as paróquias. O território da freguesia organizou-se assim à volta de uma igreja (e respectivo cemitério), permitindo a coexistência de mortos e vivos, do passado e do presente, do sagrado e do profano. O culto religioso e o cultivo da terra foram os pontos de equilíbrio subjacentes à elevação do espírito e à subsistência do corpo. Consolidaram-se práticas e representações simbólicas imiscuídas no mesmo quotidiano, marcadas embora, por dois tempos com rituais distintos – o tempo do trabalho e o tempo da cerimónia religiosa.

Sendo o cantar uma expressão da cultura local, os vários aspectos dessa mesma cultura encontram-se neles bem espelhados. Quer no modo como se canta, a várias vozes e segundo uma estrutura musical própria, quer naquilo que se canta, remetendo-nos para um reportório de temas, bem revelador da história do fazer e do pensar desta gente.

Os cantares referentes ao tempo da cerimónia religiosa destinavam-se a acompanhar um conjunto de rituais associados à morte, às peregrinações, aos santos protectores, às cerimónias litúrgicas dentro e fora da igreja…. A temática, de acordo com estes rituais, era bastante específica.

De outro modo sucedia nos cantares ligados ao tempo do trabalho, onde se espelha a variedade própria da vida quotidiana.

Nas freguesias rurais minhotas, a terra era a base de subsistência da população local. Os montes e os campos, retalhados em pequenas e médias parcelas, dispunham-se em socalcos ou campos fundos, de acordo com o acidentado do terreno. Mercê da abundância de água e da fertilização dos campos, neles se produziam variadas culturas. A floresta, o cultivo do milho e do vinho e a criação de gado foram, a partir do séc. XVI, as mais representativas. Não é, pois, de estranhar que os trabalhos agrícolas e os produtos cultivados originem um reportório temático variado e recorrente. Mas, sendo as freguesias rurais minhotas comunidades autárcicas, existiam também outros trabalhos igualmente dignos de figurar em forma de letra, tais como os que faziam as costureiras, as tecedeiras, as vendedeiras…

Apesar da actividade agrícola ser a principal fonte de recursos, tratava-se de uma economia de subsistência, apoiada em técnicas rudimentares e sujeita a flutuações agravadas pelos maus anos agrícolas e pela elevada tendência de crescimento da taxa de natalidade. A emigração constituía um fenómeno social de compensação a uma economia deficitária. Os principais destinos foram o Brasil nos anos 30 e a Europa a partir dos anos 60, embora os movimentos migratórios tenham sido constantes nesta região, já desde o século XV. Partiam os homens, ficavam as mulheres, as cantadeiras e contadoras desta história.

E como não há verso sem reverso, nem só de trabalho se vive, mas também de folguedo, de enamoramento, de amor. O tema do amor está também fortemente presente, através de ditos explícitos e alusões implícitas. O amor e o casamento são cantados como um desejo colectivo de novas e velhas. Como um bem universal. E eterno. Tal como acontece com o próprio acto de cantar.


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